25/03/2011 21:00

Metafísica McTaggarteana

 

Por Caíque Alves

 

O presente trabalho visa analisar conceitos como tempo, sua definição, movimento e sua relação com o tempo, dentre outras. Faremos isso à luz de um filósofo chamado John McTaggart, inglês que se dedicou ao estudo de questões metafísicas, e que teve diversos seguidores, alguns foram contra as suas ideias, como Russell, outros concordaram em partes.

Este trabalho é baseado no livro Metafísica, conceitos-chave em filosofia, de Brian Garret. Que somente nos apresenta a versão do autor originário, bem como dos seus comentadores, deixando de lado a visão crítica e opinião do autor do livro.

Pretendemos mostrar como definir o tempo, através das teorias McTaggarteanas de séries A e B, que definem de modo diversificado o tempo.  

 A questão do tempo já vinha sendo investigada desde a antiguidade; Platão já dizia que o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel, implicando à noção de tempo a noção de movimento.

Mas afinal de contas: o que é o tempo? Inúmeras pessoas o vêm estudando, e chegam a conclusões dos mais absurdos tipos; alguns chegam a afirmar até que não existe. Desde a filosofia antiga, com Platão, a moderna, com Heidegger, até a contemporânea, discute-se muito a respeito de o que seja o tempo, como surgiu, dentre outros.

John McTaggart[1] conclui que o tempo é irreal, e apresenta argumentos sobre isso. Embora ache-se que o autor estava equivocado ao afirmar a inexistência do tempo, suas teorias têm muitos estudiosos ainda hoje, que se colocam a favor de uma ou de outra teoria – que é apresentada com distinções – da série A ou da série B. Falemos um pouco sobre isso.

Na primeira teoria, afirma que a série A é fundamental para o tempo; na segunda, que a série B é fundamental para o mesmo.

McTaggart diz que as posições no tempo são distintas, de dois modos. Sendo cada posição anterior e posterior a alguma das outras posições (série B), ou cada posição sendo passado, presente ou futuro (série A). As posições na série B são permanentes, de um modo que na série A não o são; a série B tem valor de verdade imutável, como por exemplo: no dia 11 de setembro houve um atentado terrorista nos EUA destruindo as torres gêmeas.

Contrariamente, ao invés de permanentes como as atribuições de B, a série A tem atribuições temporárias, por exemplo: a morte do papa João Paulo II foi futuro, se concretizou (foi presente) e depois se tornou passado, e é um passado mais distante a cada dia.

Podemos, desta forma, pensar a série A e a série B como variantes nocionais do tempo, assim como para a energia temos Joules ou KWH, e para a temperatura temos as escalas Fahrenheit e centígrado.

Porém, não é esta a concepção do autor; ele afirma ser uma das séries mais fundamental do que a outra; diz que A é mais fundamental ao tempo do que B, descartando a ideia de ser B fundamental ao tempo.

Entretanto, podemos afirmar que todo evento faz parte dessas duas séries, com características totalmente diversas em cada uma. Numa, muda-se constantemente de posição, o que era futuro torna-se presente e depois passado, e depois mais passado ainda. O mesmo não ocorre em B, pois aqui um evento jamais muda. Se algo ocorre antes de outro fato, essa ordem nunca mudará.

McTaggart propõe três concepções possíveis para o tempo; numa B é fundamental, e isso sustentam os teóricos da série B; noutra A é fundamental, e isso sustentam os filósofos da série A; noutra ainda, nenhuma é fundamental, e um defensor dessa tese julga que o debate foi mal concebido.

Para o autor, mesmo que A e B sejam determinações essenciais ao tempo, A é mais fundamental do que B. Pode-se assim pensar que ele está dizendo que, embora A e B sejam essenciais ao tempo, A é suficiente para determiná-lo.

B não pode existir fora de uma série temporal, por isso, poderia ele constituir o tempo. Uma descrição da realidade em termos de B é incompleta; o conjunto dos fatos de B é um subconjunto dos fatos temporais, e, assim sendo, B não pode, jamais, constituir fundamento do tempo; nenhuma incompletude é encontrada em A.

O argumento “McTaggarteano” quando em função de A, pode ser enunciado da seguinte forma: o tempo necessariamente envolve mudança; a mudança só é possível em A, portanto, o tempo fundamentalmente envolve A em sua essência.

Para provar os argumentos apresentados, ele diz que não pode existir nenhum tempo se nada mudasse (mesmo que alguns filósofos não comunguem dessa ideia).

Na série B, os eventos nunca mudam; Hitler cometeu suicídio em 1945, e isso nunca mudará, e muito menos mudarão as relações entre esses e outros eventos. B não permute mudança.

A por sua vez sim, o fato foi uma vez futuro, tornou-se presente (concretizou-se), e a cada instante torna-se um passado mais longínquo. Se o tempo é um eterno devir, ou seja, implica mudança; então, o único fundamental é A, sendo B jogado a escanteio na concepção de fundamentação do tempo.

Russell[2] discorda, diz que passado, presente e futuro não pertencem ao tempo por si, mas a um sujeito cognoscente; presente significa que o sujeito é simultâneo ao fato, passado que é posterior e futuro que é anterior ao mesmo. Sem nenhum ser cognoscente não há presente, passado ou futuro, e estes são relativos a cada ser cognoscente existente.

Sendo A relativa ao sujeito, logo não é fundamental ao tempo. O que é fundamental para Russell, é B, pois a visão de mudança dele diverge da visão de mudança de McTaggart. Para ele, mudança é a diferença, com relação à verdade ou à falsidade, entre uma posição que concerne ao tempo x’ e outra que concerne à mesma entidade no tempo x”. Mudança é um objeto ter propriedades diferentes e incompatíveis em diferentes instantes; assim concebida, a mudança requer somente B.

Para McTaggart, a explicação de Russel simplesmente não é de mudança, pois se afirmo, e se é verdadeiro, estar vivo em x’, sempre estarei vivo em x’; e se afirmo estar morto em x”, sempre estarei morto em x”. Isso não resulta em nenhuma mudança na qualidade. O fato de estar vivo em x’ e morto em x” nunca muda, a menos que os fatos mudem. A mudança só existe, para McTaggart, em A.

A mudança, para ele, ocorre quando um evento altera sua posição na série A; já para Russell, quando um objeto é de determinada corem um instante e de outra em outro instante, tendo propriedades incompatíveis, em diferentes momentos, existe mudança.

Para que a mudança “russelliana” ocorra, não se requer que o evento mude, mas somente que o objeto tenha mudado as suas propriedades. Assim, cai por terra a ideia de McTaggart.

Tendo McTaggart argumentado que o tempo envolva fundamentalmente a série A, segue então argumentando que A é contraditório, e assim, o tempo é irreal. Segundo ele, todo evento pode ser passado, presente e futuro, logo A é contraditória, nenhum evento escapa à passagem do tempo. Se um evento é passado, não pode ser nem presente e nem futuro, nada pode possuir características incompatíveis.

Se a primeira premissa é verdadeira, a segunda é falsa, e o contrário é verdadeiro.

Não é verdadeiro que M seja presente passado e futuro. Ele é presente, será passado e foi futuro, ou é futuro, será presente e será passado, ou é passado e foi futuro e presente. Só não se compatem sendo simultâneas, e não há contradição se assim analisarmos o supracitado.

Dummet[3] diz que McTaggart supõe que uma descrição completa, verdadeira e consistente da realidade é, a princípio, possível. Se não se considerar a posição de um sujeito no tempo.

Quando tentamos especificar todas as verdades em A, em oposição a especificar aquelas que são verdadeiras a partir da perspectiva atual do referido sujeito, acabamos em contradição.

Logo, uma descrição completa da realidade é impossível tanto em A quanto em B, pois nesta ela fica incompleta, por não considerar o fato da mudança.

Então, pode-se perguntar: é possível essa descrição? Se for possível, deve aceitar o requisito consistência[4] e o requisito completude[5].

Pode-se dizer que não, pois é da essência de A que os fatos temporais fundamentais mudem à medida que o tempo passa. A realidade, assim, está em constante mudança, sendo impossível uma descrição.

Dummet admite não ser fácil abandonar a crença segundo a qual deve haver uma descrição da realidade que seja completa. Diz que de tudo o que é real deve haver uma descrição que seja completa, independente do observador.

Porém, está disposto a admitir que a conclusão do raciocínio de McTaggart é que deveríamos abandonar nosso preconceito de que deve haver aquela descrição completa da realidade.

Outros filósofos pensam que a ideia do teórico da série A de que abandonar o requisito da completude viola o nosso entendimento comum do que é, de fato. O termo fato, diz, comumente reservamos para aqueles aspectos da realidade cujas descrições explícitas são sentenças que são verdadeiras, mas não meramente verdadeiras em relação a alguns contextos ou pontos de vista e falsas em relação a outros.

Tomemos aqui um exemplo da importância do requisito da completude:

 

Nós não consideramos x está à esquerda de y e x não está à esquerda de y como descrições explícitas de fatos. Em vez disso, supomos que, sempre que tais alegações são verdadeiras, elas são explicações parciais dos fatos cujas descrições tomam a forma x está à esquerda de y em relação à z e x não está à esquerda de y em relação à w.[6]

 

 Só que esse exemplo é espacial, diria o teórico da série A. obviamente podemos construir uma descrição completa da realidade nos fatos espaciais. Para exemplificar, analisamos mapas; se não fosse verdade que se pode ter descrição completa da verdade espacial, não tem sentido fazermos mapas para nos orientar.

Entretanto, fatos temporais não admitem descrição completa, conforme já analisamos. Pode-se fornecer uma descrição completa de fatos espaciais de qualquer perspectiva ou de nenhuma, e, portanto, sem usar termos como “aqui”. Dummet sugere que não se pode fornecer uma descrição completa de fatos temporais sem usar termos como “agora”, “passado” ou “futuro”. Assim, completude, embora plausível em se tratando de espaço, é implausível no caso temporal.

Até agora nos ocupamos de descrever as duas teorias, mas afinal, qual é fundamental para o tempo? McTaggart, depois de nos apresentar as duas teorias, destrói-as, e conclui que o tempo é irreal. Até aqui, nenhum dos argumentos apresentados por ele é convincente. As teorias A e B apresentam imagens muito diversas da realidade. Em A a realidade está constantemente mudando simplesmente em virtude da passagem de tempo; os fatos estão constantemente trocando suas posições. Para McTaggart, na teoria A o presente, o passado e o futuro são reais, mas outros pensadores da mesma teoria afirmam que só as duas primeiras são reais, e esta é a mais plausível, pois o futuro é composto de diversas vias, e só se concretiza no presente, quando escolhida a via a ser seguida.

Em B não existe nenhum “agora” em movimento; o tempo não flui. Passado, presente e futuro são igualmente reais. Embora conheçamos melhor o passado do que o futuro, isso não significa que ele seja irreal, mas que não podemos conhecê-lo antes que ele se concretize.

Uma declaração de “agora” em B refere-se ao simples instante de declaração, bem como a declaração eu refere-se àquele que a declara. O presente não é mais privilegiado em relação aos outros tempos.

A e B, assim, constituem concepções diversas e incompatíveis de realidade. Na melhor versão da teoria A, o tempo flui, e o futuro é irreal. Em B o tempo não flui, e o presente, passado e futuro são inteiramente reais.

A enfatiza as diferenças entre tempo e espaço, B vê o tempo e o espaço como dimensões análogas.

 Após termos analisado a série A e suas controvérsias, e a série B e as suas, podemos agora concluir que a essência do tempo é constituído das duas séries. Elas não se contradizem, uma vez que não abordam a mesma temática a respeito do tempo, o que fazem é se afirmar uma à outra.

Não podemos cair no ceticismo de negar o tempo como fez McTaggart, mas devemos, a partir do analisado, afirmar a sua existência, comungada com a ideia de mudança; tanto a do supracitado quanto a de Russell.

 

 


 

[1] John Ellis McTaggart (1866 — 1925) foi um metafísico idealista inglês. foi amigo e professor de Bertrand Russell e G. E. Moore. Ele desenvolveu seu próprio sistema metafísico, e tornou-se famoso pelo seu argumento contra a tese da realidade do tempo. Em um célebre artigo intitulado The Unreality of Time (A Irrealidade do Tempo), publicado na revista Mind em 1908, McTaggart argumenta que nossa percepção do tempo é uma ilusão e que o tempo ele mesmo é meramente ideal.

 

[2] Bertrand Arthur William Russell, 3º Conde Russell (1872-1970) foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Político liberal, activista e um popularizador da filosofia.

[3] Michael Dummet (1925-presente) Católico, comprometido e ativista social, esteve especialmente envolvido em campanhas anti-racistas na Grã-Bretanha durante os anos 60. Escreveu livros sobre filosofia da linguagem e filosofia da matemática. Acredita que os debates tradicionais da metafísica podem avançar no âmbito da teoria do significado, tendo como influência Frege, com a filosofia da linguagem e da matemática e Wittgenstein, com a doutrina da natureza pública do significado.

[4] Deve ser uma descrição da realidade que tenha coerência, nexo.

[5] O requisito de que a realidade pode ser completamente descrita, independentemente da perspectiva temporal do sujeito.

[6] HORWICH apud GARRET, Brian. Metafísica conceitos-chave em filosofia. Ed. Artmed. Porto Alegre, 2008. p88.

 

 

 

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 GARRET, Brian. Metafísica conceitos-chave em filosofia. Ed. Artmed. Porto Alegre, 2008

 SITES:

 http://pt.wikipedia.org/wiki/J._M._E._McTaggart

 http://pt.wikipedia.org/wiki/Bertrand_Russell 

http://criticanarede.com/met_tempo.html

 

 

 

 

 

 

 

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